Silvana Deolinda

Redes sociais, política e reputação na advocacia: os riscos de uma crise

Episódios após as eleições de 2026 mostram como manifestações nas redes sociais podem ultrapassar a esfera pessoal, comprometer relações profissionais e colocar à prova a credibilidade de escritórios e instituições jurídicas.

As eleições terminam, mas seus efeitos nem sempre se encerram com a divulgação dos resultados. Em um país marcado pela polarização política, as redes sociais se transformaram em espaços onde indignação, frustração e posicionamentos ideológicos são frequentemente manifestados sem a necessária reflexão sobre suas consequências.

O problema ganha outra dimensão quando essas manifestações partem de profissionais cuja atividade depende diretamente da confiança, da credibilidade e do respeito às instituições. Na advocacia, essa discussão é especialmente relevante.

Nos dias seguintes ao segundo turno das eleições presidenciais de 2026, dois episódios envolvendo profissionais ligados ao mercado jurídico ganharam repercussão. No Espírito Santo, uma advogada que atuava como assessora jurídica da OAB estadual foi desligada após a divulgação de um vídeo com declarações hostis a pessoas identificadas com determinado posicionamento político. Em Franca, no interior de São Paulo, uma estagiária de escritório de advocacia também perdeu seu vínculo profissional depois de publicar vídeos com comentários sobre eleitores e supostas demissões motivadas por preferências políticas.

São situações distintas, com circunstâncias e responsabilidades próprias. Em comum, demonstram como uma manifestação individual pode rapidamente adquirir dimensão institucional, exigindo respostas de organizações que, até então, não participavam diretamente da discussão.

É importante distinguir as consequências. O desligamento de uma profissional da estrutura administrativa de uma entidade não significa, necessariamente, a perda de sua inscrição na OAB. Da mesma forma, o encerramento de um estágio não comprova, por si só, a ocorrência das demissões mencionadas em uma publicação. Em tempos de julgamentos instantâneos, a precisão dos fatos também é uma responsabilidade de quem comunica.

A liberdade de expressão não elimina a responsabilidade profissional

A Constituição Federal assegura a liberdade de manifestação do pensamento. Trata-se de uma garantia fundamental para a democracia, inclusive quando as opiniões são controversas, impopulares ou contrárias às convicções da maioria.

Mas o exercício desse direito não afasta a responsabilidade por eventuais violações de direitos de terceiros, manifestações discriminatórias ou descumprimento de deveres profissionais.

Na advocacia, essa relação merece atenção particular. O exercício profissional é orientado por normas éticas, deveres de sigilo, independência e respeito à dignidade da profissão. Isso não significa que advogados devam se abster de participar do debate político. Pelo contrário: a defesa de direitos e o debate público fazem parte da história da advocacia brasileira.

A diferença está na maneira como essa participação ocorre.

É possível defender convicções com firmeza sem constranger pessoas, incentivar discriminações ou transformar divergências ideológicas em critérios de tratamento profissional. O desafio não é silenciar opiniões, mas reconhecer que a liberdade de expressão convive com responsabilidades.

O que é pessoal nas redes sociais também pode atingir o escritório

Durante muito tempo, empresas e profissionais trataram as redes sociais pessoais como espaços completamente separados da atividade profissional. Essa fronteira se tornou cada vez menos definida.

Um advogado pode publicar em seu perfil particular, fora do expediente e sem mencionar o escritório. Ainda assim, se sua identidade profissional é conhecida, suas declarações podem ser associadas à organização da qual faz parte.

Isso não significa que todo posicionamento pessoal represente institucionalmente um escritório. Tampouco autoriza responsabilizações automáticas. Significa reconhecer uma realidade da comunicação contemporânea: a reputação não é construída apenas pelos canais oficiais de uma organização.

Ela também é influenciada pelas atitudes de seus integrantes, pela maneira como se relacionam com o público e pela coerência entre o discurso institucional e as práticas cotidianas.

Para escritórios de advocacia, essa exposição é particularmente sensível. Clientes compartilham informações estratégicas, conflitos empresariais, questões patrimoniais e aspectos íntimos de suas vidas. A confiança depositada no profissional pressupõe discrição, equilíbrio e capacidade de lidar com diferenças.

Quando um integrante de uma banca faz declarações públicas que sugerem hostilidade a pessoas por suas convicções políticas, a dúvida que pode surgir não se limita à opinião expressada. Ela alcança a própria relação de confiança: esse profissional será capaz de atender com imparcialidade e respeito alguém que pensa de maneira diferente?

É nesse ponto que uma publicação deixa de ser apenas uma manifestação individual e pode se transformar em uma crise de reputação.

A reputação jurídica é construída antes da crise

A resposta institucional a episódios dessa natureza costuma ser analisada pela velocidade com que a organização se manifesta. Mas uma gestão de crise eficiente não começa quando o vídeo viraliza ou quando a imprensa procura esclarecimentos.

Começa muito antes, na construção de uma cultura profissional consistente.

Escritórios precisam estabelecer orientações claras sobre o uso das redes sociais, a exposição de informações relacionadas a clientes e os limites entre manifestações pessoais e posicionamentos institucionais. Essas diretrizes devem ser compatíveis com a liberdade de expressão e com a legislação aplicável, sem se transformar em mecanismos de controle indiscriminado sobre a vida privada dos profissionais.

Também é fundamental que os integrantes da equipe compreendam que comentários aparentemente informais podem ganhar alcance imprevisível, sobretudo quando envolvem temas sensíveis ou informações obtidas no exercício da atividade profissional.

Isso vale para sócios, associados, advogados empregados, estagiários e demais colaboradores.

Uma crise de reputação não escolhe o cargo de quem a desencadeia.

Outro aspecto relevante é a coerência. Não basta divulgar compromissos institucionais com diversidade, ética e respeito se esses valores não são observados nas relações internas e externas. O público percebe contradições, e a velocidade das redes sociais amplia seus efeitos.

Por outro lado, a reação de uma organização também exige proporcionalidade. Nem toda opinião controversa representa infração ética ou justifica desligamento. É necessário avaliar o contexto, a gravidade da conduta, as obrigações profissionais envolvidas e os direitos das pessoas afetadas.

A gestão de reputação não deve ser confundida com punição automática diante da pressão das redes.

O papel da comunicação jurídica em tempos de polarização

Os episódios recentes revelam uma mudança importante na atuação da comunicação jurídica. Já não basta produzir conteúdos técnicos, divulgar decisões favoráveis ou conquistar espaço na imprensa.

É necessário ajudar escritórios e profissionais a compreender como suas manifestações públicas dialogam com o posicionamento institucional que desejam construir.

Isso exige monitoramento, planejamento, orientação e, principalmente, capacidade de antecipar riscos.

Uma assessoria de comunicação estratégica não existe para impedir que advogados tenham opiniões. Seu papel é contribuir para que essas opiniões sejam expressas com consciência sobre seus possíveis impactos, preservando a autenticidade dos profissionais e a credibilidade das instituições.

Também cabe à comunicação atuar com responsabilidade quando uma crise acontece: verificar fatos, evitar respostas precipitadas, distinguir posicionamentos individuais de decisões institucionais e impedir que a tentativa de controlar danos produza problemas ainda maiores.

A comunicação não substitui a análise jurídica, mas deve trabalhar em conjunto com ela.

Credibilidade não se recupera apenas com uma nota pública

Talvez a principal lição desses episódios seja a necessidade de compreender que reputação não se resume à imagem projetada nas redes sociais.

Na advocacia, reputação é consequência de condutas reiteradas. Está na qualidade do trabalho, no respeito aos clientes, na postura diante dos adversários, na relação com colegas e na responsabilidade com que cada profissional utiliza sua voz pública.

As eleições passam. As divergências políticas permanecem, como é natural em uma sociedade democrática. O que não deveria se perder nesse processo é a capacidade de conviver com diferenças sem transformar discordâncias em hostilidade ou discriminação.

Para a advocacia, que tem entre suas funções essenciais a defesa de direitos e garantias, essa responsabilidade é ainda mais significativa.

A liberdade de expressão permite que cada profissional tenha sua voz. A credibilidade depende de como ele escolhe utilizá-la.


Silvana Deolinda é jornalista e assessora de comunicação especializada no mercado jurídico, com atuação em posicionamento estratégico, relacionamento com a imprensa e gestão de reputação de escritórios de advocacia.

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