Silvana Deolinda

Poucos países reúnem uma contradição hídrica tão evidente quanto o Brasil

Revista TAE – Perdas no saneamento, mudanças climáticas e pressão sobre os recursos hídricos transformam a gestão da água em tema de governança e competitividade empresa

Poucos países reúnem uma contradição hídrica tão evidente quanto o Brasil. Ao mesmo tempo que concentra cerca de 12% da água doce superficial disponível no planeta, o país ainda convive com elevados níveis de desperdício nos sistemas de abastecimento. Nos 100 municípios mais populosos, as perdas na distribuição alcançaram, em média, 41,51% da água disponibilizada, segundo o Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil com base nos dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA).

O contraste ajuda a explicar por que especialistas vêm defendendo uma mudança de perspectiva sobre a questão hídrica. No relatório Global Water Bankruptcy: Living Beyond Our Hydrological Means in the Post-Crisis Era, publicado em janeiro de 2026, a Universidade das Nações Unidas propôs substituir a ideia de “crise hídrica” pela de “falência hídrica”. Segundo o documento, há regiões em que os sistemas já perderam parte de sua capacidade de retornar às condições anteriores após eventos extremos, tornando a escassez uma característica cada vez mais permanente.

O Brasil não está à margem dessa discussão. O documento recorre a exemplos de São Paulo e Rio Branco, no Acre, para ilustrar diferentes manifestações da pressão sobre os recursos hídricos — da insegurança no abastecimento de grandes centros urbanos aos efeitos do desmatamento sobre o capital natural responsável pela produção e pelo armazenamento de água. O alerta alcança cidades, governos e economias de qualquer porte.

À primeira vista, a expressão “falência hídrica” pode soar exagerada. Mas ela traduz uma mudança importante: em diferentes regiões do mundo, a escassez deixa de representar apenas um evento excepcional e passa a adquirir características estruturais.

O dado brasileiro das perdas na distribuição revela um paradoxo. Mesmo em um país reconhecido pela abundância de recursos hídricos, a disponibilidade efetiva da água depende cada vez mais de infraestrutura eficiente, gestão adequada e capacidade de adaptação a um cenário de crescente pressão climática. O desafio não está apenas em ter água disponível, mas em garantir que ela chegue aos consumidores e seja utilizada de forma eficiente.

O próprio Ranking do Saneamento oferece pistas importantes. Os municípios mais bem posicionados combinam elevados índices de atendimento com menores níveis de perdas na distribuição, demonstrando que eficiência hídrica não é apenas uma questão ambiental, mas um componente central da qualidade e da sustentabilidade dos sistemas de abastecimento.

Essa mudança de contexto tem implicações diretas para as empresas.

Tradicionalmente, a gestão da água foi associada à redução de custos ou ao cumprimento de exigências ambientais. Hoje, ela está cada vez mais relacionada à continuidade operacional. Em setores como indústria, saúde, varejo, logística, agronegócio e grandes empreendimentos imobiliários, interrupções no abastecimento, restrições de uso ou aumentos expressivos de custos podem afetar diretamente a capacidade de operação e expansão dos negócios.

Além dos impactos sobre a produção, o risco hídrico pode influenciar decisões de investimento, financiamento, contratação de seguros, licenciamento e localização de novos empreendimentos. Assim como ocorreu com a energia, a água deixa de ser apenas um insumo e passa a integrar o planejamento estratégico das organizações.

O risco hídrico tornou-se uma variável econômica.

Ainda assim, muitas organizações continuam monitorando a água apenas por meio da fatura emitida pela concessionária. O problema é que a conta mensal mostra apenas o resultado final do consumo. Ela não revela desperdícios internos, vazamentos não identificados, ineficiências operacionais ou oportunidades de melhoria que podem comprometer tanto a eficiência quanto a segurança do abastecimento.

A ausência dessa visibilidade reduz a capacidade de planejamento e dificulta a adoção de medidas preventivas.

A experiência observada em diferentes setores demonstra que ganhos relevantes costumam surgir quando a água passa a ser tratada como um recurso estratégico e não apenas como uma despesa recorrente. Na área da saúde, por exemplo, um renomado complexo hospitalar paulistano adotou iniciativas de eficiência hídrica e ampliou o aproveitamento de fontes alternativas em atividades que não exigem água potável. O caso ilustra como organizações intensivas no uso da água podem combinar redução do consumo, eficiência operacional e maior segurança no abastecimento.

Mais importante do que a economia obtida foi o aumento da resiliência operacional. Em um cenário de restrições ou instabilidade no abastecimento, organizações que conhecem seus padrões de consumo e incorporam a segurança hídrica ao planejamento estão mais preparadas para manter suas atividades.

Esse movimento acompanha uma tendência internacional. Investidores, seguradoras e organismos multilaterais têm ampliado a atenção aos riscos associados à disponibilidade de água. Questões antes restritas às áreas de sustentabilidade passaram a integrar discussões sobre governança corporativa, gestão de riscos e planejamento de longo prazo.

A razão é objetiva: sem segurança hídrica, a continuidade operacional também fica ameaçada.

O debate sobre saneamento no Brasil costuma se concentrar, de forma legítima, na ampliação da cobertura dos serviços e na redução das perdas nas redes de distribuição. Mas a agenda da água não termina quando ela chega ao consumidor. Em um ambiente marcado por mudanças climáticas, crescimento da demanda e pressão crescente sobre os recursos naturais, a eficiência no uso da água passa a ser tão importante quanto a sua disponibilidade.

Por isso, a pergunta que empresas e gestores precisam fazer não é apenas quanto estão pagando pela água.

A pergunta mais relevante é outra: a organização está preparada para operar em um cenário em que a água deixa de ser um recurso abundante e previsível?

Responder a essa questão exige, antes de tudo, conhecer os próprios riscos hídricos. Isso passa por monitoramento do consumo, revisão periódica dos padrões de uso, redução de perdas internas e planejamento de fontes alternativas quando tecnicamente viáveis.

O Brasil ainda possui uma das maiores disponibilidades de água doce do planeta. Mas abundância não significa segurança. Em um ambiente marcado por mudanças climáticas, crescimento da demanda e pressão crescente sobre os sistemas de abastecimento, a gestão da água deixa de ser uma questão operacional e passa a integrar o núcleo das decisões estratégicas.

A vantagem competitiva das próximas décadas não dependerá apenas de quem consumir menos água, mas de quem souber gerir melhor um recurso cada vez mais pressionado, instável e valioso.

Lucas Souza é advogado e CEO da We Save, consultoria especializada em gestão de recursos hídricos e energéticos para grandes consumidores corporativos.

Artigo publicado na Revista TAE em 14/08/2026

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