Silvana Deolinda

O julgamento que acontece fora dos tribunais

Em investigações de grande repercussão, a crise de imagem costuma chegar antes da denúncia, do contraditório e, muitas vezes, antes mesmo de a defesa conhecer integralmente os fatos.

Por Silvana Deolinda

Às 6h da manhã, agentes cumprem um mandado de busca e apreensão na residência de um empresário. Antes do fim da diligência, imagens já circulam em grupos de WhatsApp, perfis de redes sociais e portais de notícias. Em poucas horas, clientes questionam contratos, parceiros pedem explicações e investidores cobram posicionamentos.

Do ponto de vista jurídico, a investigação está apenas começando. Do ponto de vista reputacional, a crise já está instalada.

Esse fenômeno se tornou cada vez mais comum em casos envolvendo executivos, empresas, agentes públicos e profissionais liberais. A velocidade com que informações circulam faz com que a percepção pública sobre uma investigação seja construída antes mesmo que a defesa tenha acesso completo aos elementos que a motivaram.

Não se trata de questionar a legitimidade da atividade investigativa nem o papel da imprensa na divulgação de fatos de interesse público. O desafio está em compreender que, no ambiente contemporâneo, os impactos de uma investigação não se limitam ao processo. Eles alcançam a reputação, os negócios, as relações institucionais e, em muitos casos, a própria continuidade da atividade profissional do investigado.

Uma busca e apreensão realizada pela manhã pode produzir, ainda no mesmo dia, suspensão de contratos, afastamento de dirigentes, perda de clientes e desgaste de marcas construídas ao longo de décadas. Mesmo quando o desfecho processual posterior é favorável, parte desses danos pode ser de difícil reparação.

É nesse contexto que a gestão da crise reputacional passa a ocupar espaço estratégico na atuação jurídica.

Existe uma característica estrutural na cobertura jornalística de investigações: a informação produzida pelos órgãos responsáveis pela apuração normalmente chega primeiro ao público.

É natural que isso aconteça. Autoridades policiais e órgãos de persecução penal são frequentemente as fontes iniciais dos fatos que dão origem à notícia. O resultado, porém, é que a primeira narrativa disponível costuma ser construída sem a participação da defesa.

Quando o advogado finalmente tem acesso aos autos, analisa documentos e organiza sua estratégia, a repercussão pública muitas vezes já ganhou vida própria.

Essa dinâmica não é nova, mas foi amplificada pelas redes sociais e pelo ciclo permanente de produção de conteúdo. O tempo do processo continua sendo medido em dias, meses ou anos. O tempo da reputação passou a ser contado em minutos.

Por isso, a gestão da comunicação deixou de ser uma preocupação secundária em crises dessa natureza.

O advogado continua sendo, antes de tudo, o responsável pela defesa técnica do cliente. Mas a realidade atual exige uma atuação mais ampla.

Além de analisar mandados, acompanhar diligências e adotar medidas judiciais urgentes, o profissional frequentemente precisa orientar o cliente sobre exposição pública, entrevistas, posicionamentos institucionais e impactos reputacionais decorrentes da investigação.

Essa tarefa se torna especialmente complexa porque a crise jurídica e a crise de imagem não obedecem à mesma lógica.

O que é recomendável sob a perspectiva processual nem sempre produz os melhores resultados do ponto de vista reputacional. Em determinadas situações, o silêncio pode ser a estratégia juridicamente mais segura. Em outras, a ausência de qualquer manifestação pode ampliar incertezas e alimentar especulações.

Não existem fórmulas universais. Cada caso exige avaliação cuidadosa das circunstâncias, dos riscos jurídicos envolvidos e dos potenciais impactos sobre a reputação do cliente.

Durante muito tempo, parte do mercado jurídico enxergou a comunicação como uma preocupação acessória. Em muitos escritórios, ela ainda é acionada apenas quando a crise já ganhou grandes proporções.

Essa visão vem mudando.

Em operações de grande repercussão, comunicação e estratégia jurídica cumprem funções diferentes, mas complementares. A primeira não existe para disputar o processo perante a opinião pública. A segunda não tem como objetivo administrar os efeitos reputacionais da exposição pública.

Cada área possui responsabilidades próprias.

Enquanto os advogados trabalham para garantir direitos, preservar garantias processuais e construir a defesa técnica, profissionais de comunicação atuam para organizar fluxos de informação, reduzir ruídos, orientar posicionamentos e evitar que versões incompletas ou equivocadas se consolidem sem qualquer contraponto.

Quando essa integração ocorre desde os primeiros momentos da crise, a tomada de decisões tende a ser mais consistente e menos reativa.

A crescente exposição pública de investigações também alterou a forma como empresas lidam com riscos.

Tradicionalmente, organizações se preparavam para enfrentar processos judiciais, fiscalizações e procedimentos administrativos. Hoje, precisam considerar também os efeitos reputacionais decorrentes desses eventos.

Uma investigação pode gerar consequências muito antes da existência de qualquer decisão judicial. Dependendo do setor de atuação, da relevância da marca e da posição ocupada pelo investigado, os impactos econômicos podem surgir imediatamente.

Por isso, protocolos de gestão de crise, planos de comunicação e alinhamento prévio entre equipes jurídicas e de comunicação deixaram de ser instrumentos reservados a grandes corporações. Tornaram-se mecanismos de governança cada vez mais necessários para empresas de diferentes portes.

A presunção de inocência continua sendo um dos pilares fundamentais do Estado de Direito. No entanto, a experiência demonstra que a formação da opinião pública nem sempre acompanha o mesmo ritmo ou os mesmos critérios do processo judicial.

Essa realidade não elimina garantias constitucionais nem reduz a importância da defesa técnica. Apenas acrescenta uma camada adicional de complexidade à gestão das crises contemporâneas.

Em investigações de grande repercussão, a reputação frequentemente entra em julgamento antes mesmo do processo avançar. Ignorar esse fato não protege o cliente. Apenas reduz sua capacidade de enfrentar os efeitos da exposição pública.

Por isso, compreender a dinâmica da comunicação estratégica não é mais um diferencial para advogados, empresas e executivos. É parte da preparação necessária para lidar com um ambiente em que a informação circula instantaneamente e os impactos reputacionais podem surgir muito antes da conclusão dos autos.

Ao final, a questão não é escolher entre comunicação e defesa jurídica. É reconhecer que, em uma crise moderna, ambas são indispensáveis para proteger aquilo que está em jogo: direitos, negócios e credibilidade.

Silvana Deolinda é jornalista e consultora de comunicação, especializada em assessoria de imprensa para os mercados jurídico e corporativo.

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